10 escritores brasileiros essenciais

Escritores brasileiros essenciais

Nossos livros são nossos, por isso queremos aproveitar e compartilhar com vocês esta lista de dez escritores brasileiros essenciais.

Manuel Antônio de Almeida

Entrou para a história através de um único romance: Memórias de um Sargento de Milícias (1852); um livro da juventude com o qual Almeida fundou, por pura intuição, a narrativa realista brasileira. O livro foi publicado em fascículos no jornal Correio Mercantil, no Rio de Janeiro, e é uma revisão do gênero picaresco: acontece nos bairros pobres da cidade, e é estrelado por uma série de personagens que deixam a era colonial, mas ainda não se instalam nos dejes da burguesia. É também autor da peça Dos amores (1861). Além desses dois livros, Manuel Antônio de Almeida é lembrado no Brasil por dois acontecimentos extraliterários: primeiro, sua origem pobre, que não o impediu de se formar em Medicina – embora nunca o impedisse de praticar, pois logo começou a trabalhar como jornalista por necessidades econômicas – ou dirigir a Tipografia Nacional do Brasil; e, finalmente, nunca melhor dito, sua morte no naufrágio do Hermes, no litoral do Rio de Janeiro, quando iniciava sua carreira política.

Joaquim Machado de Assis

Inclui crítica literária, crônicas jornalísticas, contos, romances, jornalismo, poesia ou teatro: uma ambição e resultados – testemunho da transformação do Império em república – que o colocam como o mais importante escritor da literatura brasileira. Como Manuel Antônio de Almeida, veio de uma família pobre – era filho de uma lavadeira portuguesa e de um trabalhador mulato descendente de escravos libertados – e estudou na escola pública, sem meios para frequentar a universidade; sua ascensão social foi possível graças à sua capacidade intelectual. Seu principal trabalho é Memorias posstumas de Blas Cubas (1881), publicado um ano antes como folletín pela Revista Brasileira e fortemente incluído pelo brilhante Vida y opiniones del caballero Tristram Shandy, de Laurence Sterne. Uma obra experimental, tecida com capítulos muito curtos, cheios de humor e ironia, que surpreendeu os leitores da época. Os amantes do gênero curto podem desfrutar de seus Cuentos de maturez (Histórias de Maturidade), e Jorge Edwards – vencedor do Prêmio Cervantes – dedicou-lhe uma suculenta biografia.

Carlos Drummond de Andrade

Destacou-se como poeta, gênero em que fez parte do primeiro trecho do modernismo brasileiro, nascido na Semana de Arte Moderna de São Paulo (1922). Formado em Farmácia, mudou-se de Belo Horizonte, no interior do país, para o Rio de Janeiro aos trinta e dois anos. Ocupou vários cargos políticos e, paralelamente ao seu trabalho burocrático, colaborou com várias mídias e publicou uma generosa partitura de livros de poesia, caracterizada pelo rigor com a linguagem e a sugestão de suas imagens, muitos deles transformados em canções pelos mais brilhantes gênios da música brasileira. Destacam-se também as suas incursões na literatura infantil e os seus livros narrativos, muitos deles ligados à sua própria memória. Rejeitou tanto os prêmios concedidos pelo governo brasileiro quanto a indicação para o Prêmio Nobel de Literatura. Em espanhol, foi traduzido – e publicado – pela editora Hiperión, em volumes como El amor natural (traduzido por Jesús Munárriz; 2004) ou Sentimiento del mundo (traduzido por Adolfo Montejo Navas; 2005).

João Guimarães Rosa

Escrever sobre João Guimarães significa escrever sobre o sertão, ou sertão: a imensa região geográfica e semi-desértica que ocupa todo o nordeste do Brasil, assolada por morros baixos atravessados por dois grandes rios – o Jaguaribe e o Piranhas – e outros rios menores que secam no final da estação chuvosa. Seu romance fundamental se intitula Gran Sertón: Veredas (1956). É uma obra ambiciosa em que a história de um homem, Riobaldo, também é concebida como a história da humanidade; uma «autobiografia irracional», nas palavras do próprio autor. Em suas primeiras experiências como médico, ele foi designado para a área do sertão. Posteriormente serviu como médico voluntário na Revolução Constitucionalista de 1932 -o movimento que acabou com o Governo Provisório de Getúlio Vargas-, e anos depois passou no exame para ingressar no Ministério das Relações Exteriores, mudando-se como diplomata para vários países da América Latina e Europa. Ele também publicou histórias, muitas delas reunidas no Cuerpo de baile (1956).

Patrícia Rehder Galvão «Pagú»

De todos os nomes desta lista, Patrícia Rehder é a mais desconhecida dos leitores espanhóis, uma vez que não está traduzida para a nossa língua. No entanto, tanto sua vida quanto seu trabalho são de enorme interesse para sua modernidade: uma artista precoce – ligada à segunda fase do modernismo brasileiro, influenciada pela vanguarda européia e antes da Segunda Guerra Mundial – seu ativismo em favor dos direitos sociais a levou a se tornar a primeira mulher presa no Brasil – foi detida até vinte e três vezes – devido à sua militância comunista. Livre nas suas relações amorosas e no seu comportamento na sociedade, viajou por todo o mundo e trabalhou como jornalista, crítica de arte, dinamizadora teatral, designer e ilustradora. Sob o pseudônimo de Mara Lobo publicou o romance Parque industrial (1933); como Rei Abrigo escreveu as histórias policiais reunidas em Safra Macabra (1998); e junto com Geraldo Ferraz, o romance A Famosa Revista (1945). Rita Lee e Zélia Duncan compuseram em sua homenagem a música Pagu, interpretada por Maria Rita.

Rachel de Queiroz

Cronista, contador de histórias, dramaturgo, escritor de literatura infantil e juvenil, memorialista, romancista, jornalista, tradutor… Foi também perita na superação de limites, tornando-se a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras (1977), embora se recusasse a ser reivindicada pelo movimento feminista, e a primeira mulher a ganhar o Prêmio Camões (1993), equivalente ao Prêmio Cervantes em português. Seus anos em Fortaleza – nordeste do Brasil – inspiraram O Quinze (1930), pioneiro da novela social nordestina, que reflete a luta contra a miséria e a seca. As preocupações sociais nortearam o restante de seu trabalho; por sua forte militância de esquerda, foi presa em 1937, e suas obras foram queimadas durante a ditadura do Marechal Alencar Castelo Branco (1964). Um revés que não freou a influência de sua escrita, que continuou a ser relevante e popular entre os leitores até o final de seus dias: seu último romance, Memorial de María Moura (1992), baseado na vida de uma caganceira – uma «bandolera» no nordeste do Brasil – foi adaptado para a televisão dois anos depois.

Jorge Amado

É o mais traduzido desses dez escritores brasileiros fundamentais. Ele é o cantor – a seu modo – da Bahia, o estado oriental do país com maior influência da cultura africana, habitado por negros e mulatos. Devemos-lhe – em ciclos como os romances baianos ou os romances de cacau – a liturização desta terra, graças a romances como Cacao (1933), Sudor (1934), Gabriela, Clavo y Canela (1958) e Dona Flor y sus dos maridos (1966), assim como – em menor medida – livros infantis, contos, biografias, peças de teatro e volumes de memórias. Integrado na chamada Academia Rebelde, exilou-se na Argentina e no Uruguai entre 1941 e 1942 por sua militância comunista; três anos depois foi eleito deputado, assinando a lei que garantia a liberdade de culto religioso no país. A proibição em 1947 do Partido Comunista Brasileiro o forçou ao exílio na França e na Tchecoslováquia até seu retorno em 1955, onde se concentraria na escrita. Recebeu inúmeras distinções internacionais e possui doutorados honorários de universidades no Brasil, França, Israel, Itália e Portugal. Foi casado com a escritora e fotógrafa Zélia Gattai, cujo nascimento comemora seu primeiro centenário em 2016.

Clarice Lispector

Surpreendeu a intelligentsia brasileira com a publicação em 1944 de seu primeiro livro, Close to the Wild Heart, em que desenvolveu o tema do despertar de uma adolescente, e pelo qual recebeu o prêmio da Fundação Graça Aranha em 1945. Essa artista, então considerada uma jovem promessa, tornou-se uma das mais singulares representantes da literatura brasileira, para cuja renovação contribuiu com títulos tão significativos como os romances La lámpara (1946), La ciudad sitiada (1948), La manzana en la oscuridad (1961), La pasión según G. H. (1964), Agua viva (1973), La hora de la estrella (1977) ou Un soplo de vida (1978); ou os livros de contos Lazos de familia (1960), Felicidad clandestina (1971) ou Dónde estuviste de noche (1974), publicados em Cuentos reunidos (2002). Morreu de câncer de ovário, e em uma de suas últimas conversas com a enfermeira que cuidava dela, o escritor lamentou: «meu personagem está morrendo».

Rubem Fonseca

Os amantes da intriga de qualidade têm em Rubem Fonseca uma de suas referências inabaláveis, então não é à toa que é um dos nossos dez melhores escritores brasileiros. Sua dedicação ao gênero tem sido distinguida com prêmios como Camões (2003), Kotex Mercosur a las Letras (2004) ou Iberoamericano de Narrativa Manuel Rojas (2012). Formado em Direito com especialização em Direito Penal, trabalhou como advogado litigante e policial – e tentou se tornar juiz – até dedicar-se à literatura quando tinha quase quarenta anos. Antes disso, viajou para os Estados Unidos, onde residiu por quase um ano para se especializar como policial, e onde aproveitou a oportunidade de estudar Administração de Empresas. Como o seu amigo Thomas Pynchon, ele recusa-se a dar entrevistas. Escritor de histórias, roteiros de cinema e romances, muitas de suas histórias compartilham protagonistas: o advogado Mandrake, um mulherengo e cínico, destituído de moral e consciente do submundo do Rio de Janeiro. Em espanhol podemos ler o livro de contos El cobrador (1979) e os romances El caso Morel (1973), Agosto (1990) ou El semista (2010), entre outros.

Nélida Piñón

Ligadísima a España está neta e filha de emigrantes galegos, galardoada com o Prémio Príncipe das Astúrias de Letras em 2005. Formou-se em Jornalismo. É membro da Academia Brasileira de Letras, sendo a primeira mulher a presidi-la, e da Academia Brasileira de Filosofia. Foi professora convidada em universidades como Harvard, Columbia e Georgetown. Seus trabalhos incluem os romances Fundador (1969, Prêmio Walmap), La dulce canción de Cayetana (Prêmio José Geraldo Vieira de melhor romance de 1987), La república de los sueños (1999, Prêmio da Associação dos Críticos de Arte de São Paulo e do Pen Club), Voces del desierto (2005; Prêmio Jabuti) e A Camisa do Marido (2015); e os livros de ensaios e memórias Aprendiz de Homero (2008; Prêmio Casa de las Américas), Corazón andariego (2009) e Libro de horas (2013). Sua obra, traduzida em mais de vinte países, faz parte do boom dos escritores latino-americanos, junto com a de Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. A sua escrita combina o interesse histórico com a ambição do presente: a possibilidade de nos retratar e compreender a partir dos mitos e fatos que nos formam.